5 de set de 2008

O QUILOMBO DE CARUKANGO



Poucas pessoas sabem, mas em Macaé existiu um Quilombo quase tão importante quanto ao Quilombo dos Palmares.

O QUILOMBO DE
CARUKANGO


Os quilombos eram, na própria definição dos senhores da época da escravidão, redutos de negros fugitivos, que se escondiam em áreas afastadas e de pouco acesso, e viviam de modo a subexistirem. No entanto, nos quilombos, também se aglomeravam negros alforriados e livres, além de indígenas, de modo que é mais correto dizer que constituiam espaços de resistência e afirmação de culturas marginalizadas pela sociedade escravista brasileira. Isto é confirmado com a constatação da existência até hoje das chamadas terras de preto, comunidades negras remanescentes de quilombos, espalhadas por todo o Brasil. Estas comunidades resistiram provavelmente por não oferecerem maiores ameaças ao poder do Império. O mesmo não aconteceu a tantos outros quilombos, que em função do ímpeto de seus líderes, saqueavam, matavam e estorquiam, seja por vingança ou pura resistência. Estes quilombos apresentavam ameaças aos interesses da sociedade colonial, pois cresciam em número, tamanho e força, sendo por isso combatidos até a sua dissolução.
O Negro Carukango
Nascido em Moçambique, Carukango se constituía líder político e religioso de sua tribo, e provavelmente se tornou prisioneiro em guerras inter-tribais ocorridas em seu país. Vendido para um traficante de escravos brasileiro, foi acondicionado em um tumbeiro que aportou na Ilha de Sant'Ana, em Macaé, no início do séc XIX. Macaé, através do Porto de Imbetiba, constituía um importante mercado negreiro da região, e foi lá que o fazendeiro Francisco Pinto da Freguesia de Nossa Senhora das Neves, localizada na área do atual Distrito de Córrego do Ouro, comprou o negro Carukango. Em virtude de seu passado de líder, Carukango nunca se conformou com sua condição de escravo, e trouxe muitos transtornos para o seu dono. Enquanto escravo, resistiu ao trabalho, mesmo sofrendo castigos e exerceu liderança sobre os outros escravos. Quando pode, fugiu e constituíu o seu quilombo.
O Quilombo
O Quilombo de Carukango era um desses agrupamentos que ameaçavam a ordem da Colônia. Situava-se na Serra Macaense, mais precisamente num platô localizado na Serra do Deitado, parte da atual Serra da Pedra Branca. Constituindo-se em uma das maiores comunidades quilombolas do Estado do Rio de Janeiro, o quilombo de Carukango desenvolvia diversas atividades agrícolas, além da caça e da pesca. Os quilombolas viviam sobre um único abrigo, em forma de barracão, e resistiram por quase duas décadas.Através de constantes ataques às fazendas da região, Carukango e seu grupo provocou constantes saques e fugas de escravos. Os atritos entre feitores e aquilombados cada vez mais aumentavam de intensidade, de maneira que, em certa ocasião, o grupo de Carukango atacou de maneira fatal o irmão de seu antigo dono e sua família. A partir daí, Francisco Pinto não deu trégua a Carukango, e com a ajuda do Coronel Antônio Coelho Antão de Vasconcellos, chefe do Distrito Militar da Capitania do Espirito Santo, aplicou sucessivos ataques e alcançou o quilombo. Na batalha que se sucedeu conseguiu dizimar o mesmo, matando seu líder.
As Versões da Batalha Final
A versão mais conhecida da dissolução do quilombo de Carukango conta que, ao atingir o platô onde se localizava o grande barracão em que se alojavam os quilombolas, o grupo invasor se deparou com centenas deles, de todas as idades e sexos, armados de foices, lanças e algumas armas de fogo, prontos para defenderem seu território. Diante da luta desproporcional que se iniciou, Carukango surge no meio de todos, paralisando o ataque. Usando um manto religioso e trazendo um crucifixo ao peito, ele aproxima-se dos milicianos dando a entender que iria se render, quando de repente, saca uma pistola de dois canos escondida em baixo do manto, e dispara contra o filho mais moço de Francisco Pinto, matando-o. Imediatamente Carukango é linchado pelas tropas de Francisco Pinto. Diante do líder morto, os quilombolas que não haviam sido atingidos no ataque atiraram-se dos penhascos, suicidando-se.É nesse ponto da história que surge uma nova versão, a partir de recentes descobertas por parte da equipe de historiadores da SEMAPH - Macaé. De acordo com o documento intitulado “LIVRO DE REGISTRO DE ÓBITOS DA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DAS NEVES E SANTA RITTA/1808-1847”, na escrita do Vigário João Bernardo da Costa Resende, o ataque ao “Quilombo do pé do Rio Macabú” ocorre no dia 1 de Abril de 1831, uma Sexta-feira Santa. Diz ainda que o Capitão do Quilombo negocia sua rendição, dizendo aos soldados e ao comandante destes que se prometessem que não os matariam ele se entregava, assim como toda a sua gente. Se ao contrário, estes não estivessem dispostos a poupá-los, então ele queria morrer em defesa deles. O Comandante deu a sua palavra, e após todos se entregarem, um soldado por nome José Nunes do Barreto lhe disparou um tiro, e quando este tombou de joelhos, outro soldado lhe atirou por trás.Após os combates, todos os guerreiros ainda vivos foram degolados, e seus corpos foram atirados nos penhascos, juntos com os corpos dos mortos e feridos. Somente as mulheres foram poupadas e devolvidas aos seus donos. O grande barraco e todas as plantações foram queimados. Quanto a Carukango, para que o seu exemplo não fosse seguido, seu corpo retalhado foi exposto nas fazendas da região, e sua cabeça foi espetada numa lança e colocada na estrada de maior movimento até a sua completa decomposição.
Herói ou vilão?
O documento encontrado pelos historiadores requer maiores estudos. Entretanto, a sua descoberta tem uma importância enorme pois, além de reparar uma injustiça a respeito de Carukango, pode representar a única prova documental conhecida de um quilombo, já que os quilombos até então eram conhecidos no Brasil através de relatos orais ou por seus remanescentes. Porém, seja qual for a versão verdadeira, ela não tira a importância que o Quilombo de Carukango tem hoje no resgate da história afro-brasileira no contexto regional e nacional.

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